Um dos mais notáveis atores do cinema e do teatro deixa, a partir de hoje, terça-feira, 9, as telas e os palcos. Aos 80 anos, Peter O’Toole, o eterno Lawrence da Arábia, se aposenta. O anúncio, por parte do próprio ator, foi divulgado pelo site The Wrap. Apesar de ter sido um dos mais brilhantes astros da constelação do cinema internacional e ter conquistado 8 indicações ao Oscar, nunca levou para casa esse “demônio adorável” – como o denominava – por um dos filmes ao qual foi indicado como melhor ator
Desde que a tela o estampou com os inquietos olhos azuis e uma magreza exemplar como Thomas Edward Lawrence (1888–1935), o oficial britânico que liderou os exércitos árabes contra os turcos no Oriente Médio durante a 1ª Guerra Mundial (1915-18), Peter O’Toole ganhou um lugar entre os inesquecíveis do cinema. Surgia ali um dos mais notáveis e brilhantes atores do século XX, cuja paixão pela interpretação dividiria entre os palcos e as telas.
Nascido na Irlanda em 2 de agosto de 1932, criado em Leeds, Inglaterra, chegou a concretizar o sonho de trabalhar como jornalista e se tornasse um repórter exemplar, a sua carreira estava direcionada para o teatro – e aos 17 anos. Durante a 2ª Guerra trabalhou, por 2 anos, como radiotelegrafista e, ao seu fim, estudou na Academia Real de Artes Dramáticas (a mais expressiva da Inglaterra, fundada em 1904 pelo ator Sir Herbert Beerbohm Tree), de onde saiu para o palco do prestigiado Bristol Old Vic. Passou pela televisão em um seriado e um drama e chegou a fazer 2 filmes, em 1960, 3 filmes: Herança de Sangue (Kidnapped, 1960), capa e espada de Robert Stevenson, com Peter Finch, no qual era o 10º nome do elenco; o policial O Dia em que Roubaram o Banco da Inglaterra (The Day they Robbed the Bank of England), de John Guillermin, com Aldo Ray; e o excepcional Sangue Sobre a Neve (The Savage Innocents), de Nicholas Ray, ao lado de Antony Quinn.
Em 1962, numa decisão surpreendente, David Lean o escolheu pessoalmente para viver o arqueólogo, militar, agente secreto, diplomata e escritor inglês T. E. Lawrence em Lawrence da Arábia, o líder da Revolta Árabe no período 1916-18 no Oriente Médio. O’Toole, ao lado de vetranos como Omar Shariff, Alec Guiness, Anthony Quinn, Jack Hawkins, José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains e Arthur Kennedy, compôs uma interpretação visceral, a qual Lean explora em closes que espalham ao longo dos 210 minutos de duração da superprodução que custou, à época, US$ 15 milhões (arrecadou US$ 70 milhões em todo o mundo).
Confira o trailer original de Lawrence da Arábia.
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O’Toole comporia, ainda, vários personagens notáveis ao longo da carreira, entre figuras reais e de ficção. Entre os seus grandes papéis estão o Thomas Becket de Becket, o Favorito do Rei (64), de Peter Glenville, com Richard Burton; o James Burke de Lord Jim, de Richard Brooks, e o Michael James de O Que é que Há, Gatinha? (65), de Clive Donner, com Romy Schneider, o terceiro anjo de A Bíblia… no Principio (66), de John Huston, o general Ganz de A Noite dos Generais (67), de Anatole Litvak, o Henrique II de O Leão no Inverno (68), de Anthony Harvey, com Katherine Hepburn; o Arthur Chipping de Adeus Mister Chips (69), de Herbert Ross, com Petula Clark; e o Don Quixote de La Macha em O Homem de La Mancha (72), de Arthur Hiller, com Sofia Loren.
Na década de 70 ele interrompeu a carreira para cuidar de dores no estômago, que se pensava seria devida ao seu hábito de beber, mas que acabou se revelando um câncer, o qual ele acabou superando após sério tratamento.
Ainda no final da década O’Toole retornou vigoroso em 2 filmes: a aventura Zulu, de Douglas Hickox, com Burt Lancaster, e no drama fajuto histórico Calígula (79), de Tinto Brass, no qual viveu o tirano Tibérius. Nos anos 80 registrou o seu talento em O Fugitivo (80), de Richard Rush, com Barbara Hershey, na comédia Um Cara Muito Baratinado (82), de Richard Benjamin, no qual dá um show como um ator em decadência. Restaria, ainda, um papel secundário em O Último Imperador (89), de Bernardo Bertolucci, e em seguida a carreira entrou em declínio, passando a atuar na televisão e retornando ao teatro, onde, disse, se sentia mais confortável do que nos sets.
Mas, esporadicamente, O’Toole aparecia brilhante em filmes menores como As Filhas de Rebecca (92), de Carl Francis, no épico Tróia (2004), de Wolfgang Petersen, e na deliciosa comédia Vênus (2006), de Roger Michel (imperdível, está em DVD), e na fantasia Stardust – o Mistério da Estrela (2008), de Matthew Vaughn. Também deve ser contabilizada a sua atuação na minissérie The Tudors, no qual interpreta o Papa Paulo III, e no empréstimo de sua voz ao Anton Ego do excepcional Ratatouille (2007), a animação de Brad Bird.
Ele recebeu indicações ao Oscar pelos personagens marcantes de Lawrence da Arábia, Adeus Mister Chipps, o cineasta de O Fugitivo, A Classe Governante (72), de Peter Medak, os reis ingleses de O Leão no Inverno e Becket, o Favorito do Rei, e ator velhinho e sedutor de Vênus. O’Toole tem duas filhas, de seu casamento com a atriz Sian Phillips e um filho com a modelo Karen Brown. Em 2003, a Academia lhe outorgou um Oscar honorário pela carreira, mas mesmo assim ele lamentou não tê-lo conquistado em competição com os outros colegas.
Peter O’Toole, feliz aposentadoria!
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